Luísa Costa Gomes

16/11/2009 at 00:04 Publicar um comentário

A escritora Luísa Costa Gomes vai estar na nossa escola em Março de 2010. Aqui estão dois dos seus contos. Podes, assim, começar a conhecer a sua obra. Queres escrever um comentário acerca destes contos? Diz o que pensas sobre eles, sobre aquilo de que tratam, a forma como estão escritos, o que eles te transmitem.

Hades

- São os anos do Rodrigo e a gente faz o que ele quiser. Foi o que eu disse e é o que se faz. Agora calas-te e andas para a frente. E cara alegre e não arrastas os pés.
- Por que é que hadem estar sempre a discutir, mesmo no dia dos meus anos?
- Olha-me aquele, – disse o pai – parece o Guilherme, nosso vizinho. Só lhe falta o boné.
Todos se riram a olhar para o peixe vermelho, até o Rolando, embora contrariado.
- Fechastes o carro? – perguntou a mãe.
- Tudo sobre controle – disse o pai.
- Não te debruces, Rodrigo Tiago, parece que fazes de prepósito!
Os peixes rebolavam pela água esverdeada. Estavam muito feitos a serem visitados. O Rodrigo queria perguntar ao pai como é que eles conseguiam ver, só com um olho de cada lado da cabeça. Mas teve medo que ele empreendesse uma explicação demorada e agora queria mais que tudo despachar-se. E teve sorte, porque não havia muita gente a querer entrar no Aquário Vasco da Gama.
- Tens dinheiro destrocado? – perguntou a mãe. E o pai tirou da carteira uma nota de mil e deu-a ao guarda. O Rolando ficou de costas, distraído a olhar para a montra das conchas envernizadas e de cavalos-marinhos para sempre empertigados. Entraram pelas anémonas logo a seguir.
- Isto é que era uma coisa boa lá para casa – disse o pai. – Esta luz que só acende enquanto a gente carrega no botão. Era um grande poupar de energia. Depois leu:
- Anemonia Sulcata, nome vulgar, anémona.
- A cabeleira delas até parece a do Rolando – disse a mãe a querer brincar. – E logo, para o Rodrigo. – Não lambuzes o vidro, pá, que é poribido. Ainda vem aí o homem e nos põe a todos fora.
- Ih, mãe, olha-me esta lula! – gritou o Rodrigo. – Olha-me esta lula!
Ficaram todos pasmados com a lula gigante.
- Isto dava uma caldeirada para uma casa de família – disse o pai. E leu depois, no cartaz iluminado: – Oito metros e vinte e duzentos e sete quilos! Os olhos têm vinte e cinco centímetros de diâmetro…
- A oitocentos paus o quilo – calculou a mãe – vê lá tu quanto é que aí não está de lulas.
- Assim congelada é capaz de ser mais barato – disse o pai.
Foram pelo corredor conscienciosos, acendendo luzes, espreitando anémonas e cavalos-marinhos, juntando as cabeças sobre as janelinhas redondas dos aquários. O Rolando acompanhava-os à distância, como se não lhes pertencesse, de mãos nos bolsos, deitando olhares descomprometidos aos espécimes quando não podia mesmo deixar de ser, absorto num grave problema íntimo que nenhuma visita, nenhuma festa, nenhuma palavra podiam resolver. Depois começavam os peixes.
- Olha-me aquele todo às pintinhas. Ó pai, podemos ter um?
-Isto não são uns peixes quaisquers, não se arranjam assim do pé para a mão – explicou o pai. – Se calhar há para aí um ou dois no mundo inteiro.
- São muito feios os peixes – disse a mãe. – Têm um ar muito estúpido.
- Há quem diga que vimos deles, sabias? – disse o pai ao Rodrigo.
- Só se fores tu, eu cá não venho com certeza. Uma vez a minha madrinha até me quis dar um peixinho vermelho, mas aquilo fazia-me espécie, a criatura às voltas no frasco, deitei-o pela pia abaixo.
- Deitastes fora o peixe? – perguntou o pai, incrédulo.
- Era pequena – disse a mãe. – Coisas da minha madrinha.

Assim dizendo chegaram a uma grande sala. No tanque havia tartarugas. O Rodrigo debruçou-se para ver.
- Ó pai, que grandes cágados! O Pedro tem um, mas é pequeno. E aqueles ali, que é que eles estão a fazer?
O pai e a mãe olharam para as duas tartarugas que o menino apontara.
- Não são coisas para a tua idade – disse a mãe. – Sai lá daí.
O Rolando aproximou-se, porque de repente sentira uma grande motivação para ver tartarugas. Encostou-se ao muro que rodeava o tanque, repousou a cara na mão direita e observou desapaixonadamente o namoro daqueles bichos.
- Mas eu já sou crescido – ripostou o Rodrigo. – Já vi na televisão.
Viraram à direita e puseram-se a subir para as focas. Abrandavam o passo porque o Rolando não descolava do tanque educativo e também porque ainda era cedo para o almoço e, pelo andar da carruagem, calculavam que não houvesse ali muito mais para ver.
Na sala das otárias, a mãe deixou-se embevecer pela decoração marinha de conchas e barrocos búzios.
- Isto está um luxo, já vistes? Está lindo. E, para o Rolando, que chegava. – Hades ficar sempre para trás e andares de trombas. Nem nos anos do teu irmão nos fazes o favor de estares contente, poças!
- Agora por poças – disse o pai com o seu ar das festas, pegando no Rodrigo ao colo para lhe mostrar as focas. – Lembro-me de andar um dia na pesca com o meu tio Olindo…
- Lá vem a história do tio Olindo! – suspirou a mãe a rebolar os olhos.
- … e não pescávamos nada, estivemos para ali a manhã toda e nada, até que ele resolveu ir mais para baixo no rio, onde a água ia com mais força…
- Deixa lá os promenores e despacha-te – disse a mãe, admirando ainda as convolutas da decoração da sala.
- … e eu a ver, era pequeno, tinha para aí a tua idade. Bom, vai o tio Olindo por ali abaixo, chega aonde a corrente era mais forte e posta-se de perna aberta e lança o isco e fica à espera. A certa altura só o vejo começar assim como que a dançar, levantava uma perna, depois outra e eu pensei que ele estava todo contente porque tinha apanhado algum, mas não. Depois vejo-o cair estatelado dentro de água, ao comprido.
- Ih, que fixe! – disse o Rodrigo.
- Tinha-lhe entrado uma rã para a galocha e estava-lhe a fazer uma comichão danada. Então caiu na água. Bom, mas o melhor foi que o tio Olindo se despiu todo e ficou só em ceroulas e pôs a roupa a secar numa pedra e vieram uns miúdos e roubaram-lhe tudo.
O Rolando emprestava àquela história uma orelha meio ausente. Conhecia de cor a história do tio Olindo, lembrava-se de ouvir o pai contá-la em casamentos e baptizados da família, com um copito a mais, e quando o Rodrigo, depois de ter estado muito doente em bebé, saíra finalmente do Hospital. No carro, na viagem para casa, com o Rodrigo no colo, o pai contara a história do tio Olindo e a mãe chorara a rir.
Agora só o Rodrigo é que se ria a ouvir o pai.
- Bom, mas não acaba aqui – disse o pai. – Do que eu mais gosto de me lembrar é do meu tio Olindo, muito gordo, todo nu só com as ceroulas, descalço a passear-se todo contente pela aldeia, de cana de pesca ao ombro e a rir-se para as mulheres que chegavam à porta e se benziam como se tivessem visto o diabo.
- Era muito bom homem, o tio Olindo – concedeu a mãe. – Já lá está, coitado.
- Ó pai, como é que se dá de comer às enguias eléctricas? – perguntou o Rodrigo. Mas o pai ainda estava com a memória noutro lado, enquanto lia no cartaz:
- Descargas de duzentos a trezentos volts, é o mesmo que pôr a mão na tomada.
- Isto está visto – disse a mãe, e começou a descer para o tanque das tartarugas, que controlou. – Estou farta de lhe dizer para não pôr tanta porcaria nos bolsos, que me deforma as Levi’s – queixou-se ela, a ninguém em especial – depois é, ó mãe quero uns Nike, ó mãe quero umas Levi’s, e rebenta com tudo. Levanta os pés, Rolando Bruno!
Portanto, a mãe estava a ficar com fome. Ainda bem que tinham chegado a uma sala cheia de peixes comestíveis.
- Ele é bacalhau, ele é garoupa, cherne, badejo! Anchovas, pargo, polvo! Só faltam as batatas e os grelos! – disse o pai.
Riram-se.
- Não se percebe nada! – disse a mãe. – Mas que vigarice, desde quando é que o bacalhau é peixe de aquário?
- Se tivéssemos azeite, almoçava-se já aqui!
- Ih! – gritou o Rodrigo – olha-me só a tromba daquele!
Mas os pais tinham parado diante de um cardume de peixinhos vermelhos e a mãe encostara a ponta do dedo indicador ao vidro. Ficara sonhadora, depois o pai afastara-se e premira o botão da luz noutro aquário.
- Apogon Imberbis – leu em voz alta, para o resto dos visitantes – “a fêmea expele os ovos (envoltos numa substância gelatinosa que os mantém unidos num aglomerado), que vão ser incubados na boca do macho; este jejua até ao nascimento das larvas, expelindo-as então”…
- Que porcaria! – disse a mãe. – Lembram-se de cada uma!
Poderia-se lá pensar!
Nessa noite, ao adormecer, no fim do dia em que fez cinco anos, o Rodrigo lembrou-se dos peixes, perguntou-se como podiam respirar debaixo de água. Mas quando a mãe lhe perguntou, dando-lhe um beijo de boa-noite, o que é que ele tinha gostado mais de ver, respondeu:
- Do que eu gostei mais foi do bolo de chocolate do restaurante.
A mãe também estava já farta de peixes. O pai demorava-se a ler as legendas, o Rolando não conseguia disfarçar a impaciência, batia com as biqueiras dos ténis no chão, ora uma, ora outra e assobiava entre dentes.
- Não sei porqué que hades estar sempre a fazer isso – disse a mãe ao Rolando. – Estragas-me o ténis todo.
- Não é hades, é hás-de – disse o Rolando.
Os outros três estacaram, ficaram parados a olhá-lo. O Rolando mudou o peso do corpo para a outra perna, cruzou os braços sobre o peito e repetiu, numa ameaça:
- Não é hades, é hás-de.

Luísa Costa Gomes (1997) Contos outra vez. Lisboa: Cotovia

Por Extenso

Quero o maior! – desde pequeníssima, sempre o maior. O urso: o maior. O cãozinho: o maior. O livro, se o escolhia: o maior, o com mais cores, o com a letra mais gorda. E, na comida: o prato maior, a fatia maior, a posta maior. O bolo: evidentemente, o maior. Poupada apenas nisto das letras. Abreviaturas, simplificações. Escolhido para nome Nê, porque encontra muito comprido o que lhe impuseram – Ana Lúcia é o seu nome da escola, com que assina os testes e os trabalhos, e Nê o seu nome livre.
Vai agora a atravessar a passadeira de peões e a escrever uma sms ao mesmo tempo. É um truq q costuma fzer para mostrar q tanto se lhe dá. Que é forte. Um carro pára, os travões guincham, os pneus até dtm fmo, a mulher baixa o vidro e grita-lhe:
- Ó menina, quer ir já para o céu, tão novinha?
Nê treme tanto que os dentes chocalham na boca, o carro a dois milímetros dos ténis de plataforma que nesse dia estreia, o telemóvel na mão onde a sms começada ainda enlanguesce: “vmos hje ao cc cnema k v o k?”; e a condutora olha-a de dentro da carrinha familiar, sorrindo, cínica e arrancando, em esfogueteada primeira, grita:
- Menina (…)!   Menina Qualquer Coisa, palavra que ela não percebe e escreve no tlm “ia sendo atropelada! tou aq td a trmer!” e envia à Ana Márcia que lhe responde logo “táse!”.
Aq palavra q ela não percebeu teve um efeito curioso em Ana Lúcia. Começou a tomar mais atenção ao mundo, a estar mais alerta para td o que ia e vinha à sua volta, à espera de a reconhecer. Podia acontecer em qualquer lado, na piscina, a meio de um salto da prancha, e ter a orelha tapada pela touca. No polivalente, à passagem de alguém, embora lhe parecesse pouco provável. No polivalente havia sobretudo ruído. Mas era preciso estar preparada. No café, ao interv do almoço, no meio da vozearia dos rapazes que se batiam por td e por nada, ouviu a palavra “desconchavada” vinda de uma mesa de mulheres-gralhas e achou q não era Aquela a Que Demandava, mas acabou por ficar.
Agora, em vez de responder “táse” quando o tio António, o meio tolinho meio irmão do pai q vive na cave, lhe pergunta com um olho meio fechado : “Q tal o dia…? Na escola…?”, ela diz “Olha, tive um dia mesmo desconchavado”, deixando a Leila interdita, com a franja a encaracolar-se-lhe e a escova de alisar o cabelo a pilhas rodando estupidamente na mão. Foi lanchar, quase sem fome, escolhendo a fatia maior. Leila disse, no dia seguinte, afundada na torrente de palavras sem sentido com q normalmente a enviava para a escola: “encardida”. “O quê?”, perguntou. “O quê o quê?”, perguntou a Leila. “Disseste que a camisola estava o quê?”. “Encardida?”. A palavra que Ana Lúcia buscava não era “encardida”, mas passou a usá-la tb. na frase “ Sinto esta fase da minha vida um bocado encardida”. E comeu pouco ao pequeno-almoço.
SMS para cá e para lá nas aulas. O tema: um MMS da Ana Sandra que mostrava um homem todo nu com uma grande cabeça de abóbora. Mas Nê já estava noutra. Achou os colegas todos “lúgubres”. E, no interv das dez e meia, espantou a Ana Margarida ao dizer que a comida do refeitório era “sórdida”, que o Paulo andava “sorumbático” e “extravagante”, mas sorriu ao nome da namorada dele, quando lho disseram : Mirtília Túlia. Não era de troça, era um nome q era um nome verdadeiro. E a frase favorita : “ O Paulo é cá um lapa”. E o filme de murros no centro comercial? “Inane”, comentou. Procurou (sem realmente procurar) os sítios onde seria mais provável ouvir o que não percebera da primeira vez. A casita onde morava com o meio tio e a mulher, Leila, passou a ser uma “choça” e o carro deles um “chaço”. Olhou Silvestre, o misterioso vizinho que estudava matérias misteriosas, com nova motivação. Espiava-o do seu pátio em frente à garagem e achava tudo feio – fora a cameleira, “deslumbrante”. E pequenos musgos no muro, “pitoresco”. Não falava muito. Ficava a apreciar o pouco que tinha, procurando as palavras mais apropriadas com gula. Não era, por exemplo, paixão o que sentia por Silvestre, mas “encantamento”, e em outros momentos, “delírio”. De vez em quando escrevia uma palavra no muro, de líquen a líquen. Silvestre, entretanto conquistado pelo prolongado silêncio dela, convidou-a para tomar um café. Acompanhou-a à vitrina.
- É um pastelzinho, por favor – pediu Ana Lúcia – aquele ali.
E apontou, discreta. Era o mais humilde, mas foi dito por extenso, com um belo sorriso de amor, com as letras todas.

Luísa Costa Gomes (2007) Setembro e outros contos. Lisboa: D. Quixote

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entrevista a Daniel Sampaio particípio passado

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